Trabalhar com crianças - sempre um aprendizado

Qua, 30/06/2010 - 10h08

Trabalhar com crianças sempre um aprendizado

Elas são mães e escolheram seguir uma carreira que envolve ajudar no desenvolvimento de bebês, crianças e adolescentes que não sejam os seus filhos. Professoras, babás e psicólogas se desdobram para que a criançada tenha um crescimento físico e psicológico saudável.

Em tempo se férias os professores tiram uma folguinha.

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Entram em ação, recreadores e monitores em parques temáticos ou acampamentos. Quem conhece bem essa realidade é Marília Rabello, 44 anos, mãe de três filhos - com idades de 9,13 e 15 anos - e diretora do Acampamento Peraltas, infantil e juvenil, localizado em Brotas, no interior de São Paulo.

Marília começou logo cedo a trabalhar com os pequenos. O perfil de empreendedora a fez abrir uma empresa de animação de festas infantis logo aos 17 anos. Mais tarde passou para o trabalho de monitora no grupo Peraltas. Bastaram três anos para ela passar de estagiária e monitora, para a coordenação dos eventos, e por fim, se tornar diretora. "Sempre gostei muito de crianças, pela ingenuidade, necessidade de atenção e espaço. Acredito que o principal segredo para trabalhar com elas é propor atividades interessantes, que agucem sua criatividade e imaginação. Dando atenção, carinho, respeito e, principalmente, sabendo ouvi-las.", diz.

Marília observa que muitas crianças estão carentes de autonomia, de conviver com os colegas e aprender através da vivência. "Elas também precisam ter noções de cidadania, aprenderem a respeitar e serem respeitadas", acrescenta. Na sua opinião, atividades dentro de um acampamento são ótimas para isso. "Lá todos são iguais, com as mesmas obrigações e deveres. As crianças também ficam mais abertas a aprender nesses momentos, pois não têm que se preocupar com a família, apenas com elas mesmas. De fato é um momento só delas", ressalta. Para qualquer função que envolva crianças, ela acredita que é necessário ser muito responsável, dar bons exemplos, ter paciência e, claro, ser sempre um profissional muito animado e divertido. A diretora se sente realizada profissionalmente quando alguns ex-acampantes dizem que as atividades durante as férias nos acampamentos ajudaram a torná-los pessoas mais decididas e ativas, adultos mais humanos e conscientes.

Depois de mais de 25 anos ao lado da criançada, Marília observou de perto as mudanças das gerações, seus pontos positivos e negativos. "Hoje elas são tratadas como jovens adultos, com muitas atribuições, atividades, roupas e diversão. E perdem a fase mais bela e descompromissada da vida. Estão sem espaço para conviver com outras crianças, sem momentos para brincar, se divertir, se conhecer", opina.

A psicóloga Regina Elia acrescenta que muitos profissionais, incluindo os pais, não conhecem a fundo a vida emocional da criança, do mundinho infantil, da importância dos contos de fadas, desenhos e de se criar novas brincadeiras. "É através disso que os pequenos se expressam, aliviam o seu inconsciente, e conseguem resolver os seus próprios conflitos", explica a diretora da Escola Psicológica Regina Elia (São Paulo), que ministrou cursos para 8000 alunos, entre babás, pais e professores de educação infantil, com o aval do Sindicato das Escolas Particulares de São Paulo.

Depois de não concordar com a didática do próprio pai e observar durante a formação que muitos profissionais não têm conhecimento da vida emocional da criança, ela começou a se interessar pelo assunto. Mas foi quando cuidou da própria filha, hoje com 16 anos, e não encontrou uma boa babá, que surgiu a ideia de montar uma escola. "Muitas chegam para mim e dizem que tem anos de experiência e não precisam aprender mais nada, mas muita coisa mudou, principalmente com as novas tecnologias", acrescenta.

Para Marília, o grande desafio de lidar na questão das brincadeiras é buscar algo novo diante do excesso de possibilidades que a internet e videogames oferecem. "Elas conhecem tudo muito cedo, pedem o interesse com facilidade, ou acham que compreendem tudo. Por isso, acredito que o acampamento, por exemplo, é um local para elas se desligarem um pouco e aproveitar o que a natureza tem de bom para oferecer", diz.

Com tanta oferta de informações e possibilidades, e pouca brincadeira de fato, as crianças se tornam adultas antes do tempo e se acham no direito de serem donas do próprio nariz. A conseqüência disso, conforme a psicóloga, é a dificuldade de pais e professores impor limites. "Sobre isso existem dois pontos. Um deles é que muitos pais projetam o que querem para seus filhos, acham que eles devem ser o que não foram. Ou então, quando não conseguem educá-los acabam deixando os filhos no computador ou em frente à televisão como uma fuga, pois já perderam o controle da situação", aponta a consultora psicológica.

A questão da autoestima também é bastante discutida durante os cursos. Com a falta de segurança, a criança se sente perdedora e transfere isso durante a convivência com os colegas. "Muitas acabam os agredindo do jeito delas, algo bastante comum nas escolas", diz Regina. A timidez também é outro fator importante que deve ser trabalhando, conforme a psicóloga. "Muitas vezes, as crianças não sabem se defender e tem medo de se expor, assim se prejudicam e acabam não colocando para fora o que realmente sentem", diz.


Mesmo com tantos desafios e responsabilidades, pois o que está em jogo é o futuro de um cidadão, elas confessam que não se arrependeram da escolha. "Me sinto realizada e não sei o que faria se não trabalhasse com elas", finaliza Regina.

Por Juliana Lopes

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